Aspectos psicológicos envolvidos na ovodoação

Quando um casal com dificuldades para engravidar busca o auxílio dos tratamentos de reprodução assistida, na maioria das vezes, espera sair desse processo com um filho biológico. Porém, em casos como os de falência ovariana e menopausa precoce, a fertilização com óvulo de doadora pode ser a alternativa terapêutica indicada pelo médico para a concretização do sonho de ter um filho. A ovodoação precisa ser entendida a fundo, ela é muito mais do que um procedimento indicado pelo médico. Há questões psicológicas advindas dessa técnica que merecem cuidados especiais para que sejam evitados problemas futuros. Sempre que falamos de ovodoação, estamos trazendo o tema adoção em pauta. É verdade que se trata de uma adoção diferente da tradicional, mas para a mulher que realiza esse tipo de procedimento, muitos dos aspectos psicológicos envolvidos na adoção clássica também são vivenciados na ovodoação. Assim, o luto pela perda do filho biológico e sentimentos de dor e frustração advindos desse processo podem ser experimentados para, aos poucos, cederem lugar a novas possibilidades de maternidade.  Há muitas mulheres que encontram dificuldades para entrar em contato com esse luto, negando para si mesmas o fato da adoção do óvulo, acreditando que por terem gerado a criança em seu próprio ventre, o material biológico é mesmo delas. Nestes casos, a negação inconsciente da necessidade de se utilizar o óvulo de uma mulher doadora marca a dificuldade de aceitação deste tipo de adoção, podendo, inclusive, gerar fantasmas posteriores ao nascimento do bebê, caso esse conteúdo inconsciente venha à tona novamente, em alguma outra etapa de vida. Outro aspecto emocional que pode ser acionado com a ovodoação é a fantasia de traição por parte do marido, através da fecundação do óvulo da doadora com o espermatozóide de seu companheiro. Por mais irracional que este tipo de pensamento possa parecer, precisamos considerar que o registro psíquico que temos de concepção de filhos é sempre a partir do material genético de cada um dos membros do casal, sendo, muitas vezes, difícil para algumas pacientes elaborar essa nova forma de concepção. Para casais que disputam poder dentro da relação conjugal, a ovodoação pode potencializar conflitos e ainda vir a prejudicar um terceiro: a criança. Tendo em vista os fatores levantados até agora, é possível compreender o porquê o emprego da ovodoação precisa ser cauteloso e requer um acompanhamento psicológico. Se apropriar do óvulo de outra mulher “como seu” requer um trabalho interno de elaboração desse processo, uma vez que para algumas mulheres, a ovodoação pode representar a frustração de não poder gerar um filho com seus próprios óvulos. Para outras, a experiência da ovodoação se traduz numa vivência de gratidão a alguém que não se conhece, mas que foi fundamental para entregar-lhe um presente para toda a vida.

Por Luciana Leis,  psicóloga, especializada no atendimento a casais que enfrentam problemas de fertilidade.

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28 respostas em “Aspectos psicológicos envolvidos na ovodoação

  1. Gostei muito do texto, estou passando por este momento e esta muito dificil apesar de ter pessoas ao meu lado que encaram este fato com naturalidade mas para quem esta na situacao realmente e muito dificil.

  2. Olá, bacana seu artigo.
    Na verdade li o artigo pensando em uma situação inversa, como a utilização de semen de doação em razão da infertilidade do homem e imagino que talvez seja mais difícil. O que acha?
    Tenho uma pessoa na família que está começando a pensar neste procedimento.
    Abraços Tamara

  3. Acabei de ser diagnosticada com menopausa precoce. Tenho 31 anos. Estou pesquisando sobre a FIV com a ovodoação, pois creio que seja a melhor maneira de realizar meu sonho de ser mãe. Estou confiante.

    • A autoconfiança e muito importante em meio a esse processo, existem vários caminhos que podemos percorrer rumo à maternidade, sendo a ovodoação uma possibilidade bastante satisfatória àquelas que consigam se abrir à ela. Luciana Leis

  4. Oi Luciana, legal seu texto. Sou mãe através de ovodoação e passei por alguns desses impasses que vc coloca no texto. Estou muito feliz com meu filho e me sinto realizada como mãe. No entanto hoje penso de uma maneira diferente das outras pessoas com relação ao significado biológico. Talvez esteja negando como vc diz essa questão…
    Penso que existe uma doadora de uma célula com uma carga genética, no entanto esta célula só se desenvolve se estiver dentro de um ser vivo (no caso nós humanos). Sendo assim, me vejo, sim, como uma mãe biológica (bios = vida) pois sem o meu sangue, sem a minha vida aquela célula não se desenvolveria. Tenho plena ciência de existem uma mãe genética tb, que pra minha gratidão me deu uma de suas células.
    Gostaria de saber se vc tem algum material extra que fale do assunto e sobre como contar isso ao filho.
    grata

    • Olá, Renata!
      Concordo com sua forma de ver esse processo! Quanto à sua intenção de contar ao seu filho, penso ser muito saudável para a relação da sua família que não hajam segredos, pois não há nada de errado implicado nesse processo para que vc esconda, somente muito amor e o desejo intenso de que essa criança pudesse vir ao mundo. Recomendo o livro “Lab-o planeta que fabricava bebês”, que trata-se de um livro infantil que auxilia os pais a contarem aos filhos sobre as novas tecnologias de reprodução humana, incluindo adoção de gametas. Tudo de bom para vc.
      Abraços Luciana

    • Nossa Renata, concordo plenamente contigo! E fico feliz que vc adquiriu esse pensamento nas questões vindas da sociedade

  5. Luciana,
    gostei muito do texto e estou num momento delicado demais.
    acabei de receber o diagnóstico de falência dos ovários (tenho 42 anos). Meu marido é mais jovem 10 anos e não acho justo que não tenha filhos como sonhava por motivos que não são só deles. È um perfeito companheiro e amigo. Estamos pensando na ovodoação com milhoes de interrogações ainda.
    Eu penso nele, no nosso sonho, e que, se adotarmos uma criança, não será biologicamente de nenhum de nós. Na ovodoação haverá o material dele a da minha parte a gestação, parto e amamentação.
    Mais algum material que possamos ler para tomar uma decisão dentro de nossas condições psicológicas?
    Obrigada de qualquer maneira,
    Andréa

    • Oi, Andréa! Estou na torcida para que possam realizar o sonho de terem um bebê juntos! Desconheço material para indicar sobre o tema ovodoação, mas, se tiver dúvidas quanto ao assunto, pode me encaminhá-las por e-mail (luciana_leis@hotmail.com) que, dentro do que estiver ao meu alcance, posso tentar ajudá-la. Abraços

    • Estou na mesma q vc Luciana, tb tenho 42 e meu marido 32.Já fiz 2 fivs com meus ovulos.Na primeira engravidei e abortei com 3 meses e na segunda engravidei e tive gravidez bioquimica.Agora foi sugerido fazer a fiv com ovulos doados, mas to desesperada, pois não sei se tento novamente com meus ovulos, haja vista tudo q ocorreu ou se aceito a doação de ovulos.Queria tanto um filho com minhas caracteristicas..isso tá me matando….não sei q rumo tomar

      • Oi, Mariana! Penso que, diante dessa sua ambiguidade, algumas sessões psicológicas poderiam ajudar em sua decisão. Entendo que é difícil pensar em ovodoação quando ainda se está ovulando, por isso, antes de inicar a ovodoação é necessário o trabalho emocional das questões subjetivas envolvidas neste processo. Boa sorte para vc!!!

  6. gostaria de saber qual o melhor caminho no que se refere a contar ou não contar sobre a ovodoção para os familiares e amigos? Para a criança, acredito, sim, que o melhor é a verdade. No tempo certo.

    • Olá Luciano
      Contar ou não para familiares e amigos é uma decisão que cabe ao casal.Nem todos se sentem à vontade para abrir sobre a técnica para os que estão à sua volta, porém, é verdade que, no caso da criança conhecer sua história (que é o que se recomenda nesses casos), ela pode querer dividir com os que estão próximos à ela, então, é interessante que pessoas muito íntimas à criança possam saber também desta história. Caso a família opte, desde o início, em abrir sobre o assunto aos que estão à sua volta, não existe, necessariamente, um tempo certo para contar a eles, daí, vai do tempo de cada casal querer falar sobre isso. Abço Luciana

  7. Penso como a Luciana que existe uma doadora de uma célula com uma carga genética, no entanto esta célula só se desenvolve se estiver dentro de um ser vivo (no caso nós humanos). Sendo assim, me vejo, sim, como uma mãe biológica (bios = vida) pois sem o meu sangue, sem a minha vida aquela célula não se desenvolveria.
    Ana Priscila, 24/05/2012

  8. Adorei o texto, estou tentando ser mãe através da ovodoação, já que não tenho óvulos. Graças a Deus esse assunto é bem tranquilo pra mim e meu esposo. Não vemos nenhum problema em ter um filho através de um óvulo doado fecundado com o esperma dele. Estamos muito, muito felizes com essa possibilidade e esperando que a FIV dê certo. Bjos

  9. ola, tenho 41 anos e meu marido 36, estou em tratamento para ovodoação, fiz 3 inseminações sem sucesso, apesar de ter 2 ovulos estou com fsh alto. Com relação a questão biológica, tambem penso que a celula jamais se tornará vida se nao for desenvolvida e gerada dentro de mim., portanto na minha opinião, mãe é quem gera e da a vida. Pode falar mais sobre isso.
    Um abraço
    Luiza

  10. Engraçado como as pessoas que fazem a ovodoação não se sintam mães. É só pensar: Em um fllho biológico somente a metade dos gens é seu a outra metade é do homem. Portanto nós somos muito mais parentes biológico de um irmão do que mesmo de um filho, pois a junção do pai e da mãe é o mesmo do irmão. Dessa forma, qual é o problema se somente uma metade dos gens seu não tiver no seu filho? Já temos seres tão parentes cmo nossos irmãos e sobrinhos, pq necessariamente temos que remoer isso? Afinal quem gera é qu é mãe e não quem doou. Se eu doasse meu óvulo pra alguém e depois visse esse filho, jamais iria me achar mãe dele, pois não tive e nem passei pela gravidez como a mãe que gerou passou ….beijos

  11. Olá Luciana, não quero perguntar nada, pelo menos, não agora…rsrs…só queria desabafar o que sinto e compartilhar…faz bem…e seu blog é muito bom…tão calmo e gostoso de ler…Enfim, tenho 38 anos e baixa reserva ovariana. Minha primeira tentativa para tentar produzir óvulos não caminha muito bem e até quinta saberei se o tratamento continua ou não. Claro que já li tudo sobre o tema da ovodoação, inclusive tenho uma amiga grávida por esse mesmo processo que está muito feliz, e eu estou abertíssima pra essa possibilidade, que tem ganhado mais força a cada dia…Mas confesso que é difícil. É um absurdo o que vou dizer, mas dá medo de rejeitar o bebê…Eu sinto esse receio e me incomodo com isso…No entanto, qdo penso em adotar do modo tradicional, isso some do meu coração. E aí Luciana e ‘meninas’ chego à conclusão que muito do que sinto pode ser orgulho…porque se somos capazes de amar um bebê adotado por via tradicional, como não amar um que cresce e se desenvolve em nosso ventre? Como nunca fui mãe, não dizer ao certo, mas o que ouço dizer é que o amor pelo filho, no caso biológico, é algo que vai sendo construído aos poucos, durante a gestação e até mesmo depois do nascimento…Então, a receita é se abrir pro amor e pro aprendizado…nada é por acaso…e tudo acontece como tem que ser…

    • É verdade, a filiação em nada depende da genética, até mesmo os pais biológicos precisam adotar os próprios filhos. A filiação é um processo construído e puramente emocional.

    • Camis,
      se me permite a complementação ao blog, eu já sou mãe através de ovodoação e seu medo não é algo estranho para nós que passamos por este processo. Também tive medo de não gostar do meu filho. No início achava uma traição do meu marido comigo mesmo! Depois de muito conversar e refletir me abri para essa possibilidade e não me arrependo em nenhum momento. Me filhote está com 2 anos e 3 meses e somos apaixonados um pelo outro! Eu sinto que ele me ama também!! Boa sorte no seu tratamento!
      Se a Luciana permitir, gostaria de passar o endereço do meu modesto blog em que falo minha história. http://ovodoacao.blogspot.com.br/2013_07_01_archive.html
      Abraços

  12. Já passei por 4 FIVs, sem sucesso. Estou com 43 anos e creio que se houver alternativa de ser mãe, será pela ovodoação. Ainda está muito recente para mim, pois meu quarto “negativo” tem 2 semanas, apenas. Quero muito engravidar, mas tenho muito medo da ovodoação. Meu marido já tem um filho do primeiro casamento e me sinto muito inferior em não conseguir ser mãe. Ler esse texto me deixou em prantos. Meu tempo está se esgotando. Se não já se esgotou…

  13. Nossa, que bom ter achado este blog.
    Estou no meio deste processo de receber uma ovodoação.
    Eu tenho 44 anos e uma filha de 5 (de FIV com meus óvulos).
    Eu passei por 2 abortos no ano passado e pensei ao longo destes meses na aceitação da ovodoação. E achei que a tinha aceitado tranquilamente; que já tinha elaborado bem isso.
    Há 2 meses recebi a ligação que foi achada uma doadora compatível comigo e que poderíamos iniciar o processo. Fiz histeroscopia, tomei remédio para uma endometrite e… fiquei pronta.
    Quando recebi a informação de que iríamos parear a menstruação para dar início ao processo, PIREI!
    Fiquei muito nervosa. Me veio mil fantasias: de rejeitar o bebê, de me desesperar com aquele ser estranho dentro de mim, de não gostar dele, de ter pânico por causa disso, da minha vida virar um caos e eu culpar o bebê!
    Há 3 dias tenho me acalmado e tentado refletir sobre o assunto e estou mais calma, mas ainda com medo, pois – em hipótese alguma – quero prejudicar um bebê que eu estou pedindo.
    Também me pesa a ideia de um segredo sobre a doação, como é recomendado pelo médico.
    Melhorei, mas ler este blog me ajudou ainda mais.
    Já marquei uma consulta com uma psicóloga com a qual já fiz terapia – em Niterói/RJ, pois percebi que não estava tão preparada assim.
    Luciana, parabéns pelo blog. Caso tenha alguma sugestão, por favor.
    Ler estes depoimentos e definições tão particulares me emocionou demais e sei que irá me ajudar.
    Parabéns a todas pela disposição em se expor e ajudar. Permanecerei em contato.

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