Contar ou não contar?

Nos dias de hoje, cada vez mais as técnicas de reprodução assistida são utilizadas por casais que enfrentam dificuldades para ter um filho. No entanto, apesar dos tratamentos para infertilidade terem se tornado comuns, nota-se que ainda existem diversos tabus relacionados ao assunto. Geralmente, quando os casais optam por buscar algum tipo de tratamento para engravidar, dificilmente pensam se contarão ou não para a futura criança a forma como ela foi concebida. Mesmo em casos onde há a utilização de gametas de terceiros (óvulos ou espermatozóides doados), percebe-se que os casais preferem adiar o momento de pensar sobre essa questão, ou então, nem se questionam, dizendo que não há necessidade de revelar tal fato, afinal, houve gravidez, parto… E a criança não precisa saber de nada disso. Será? A resistência dos pais em contar para o filho sua forma de concepção, na maioria das vezes, está atrelada à dificuldade dos mesmos em lidarem com as feridas deixadas pela infertilidade. Para alguns é muito dolorido encarar o fato de não ter podido engravidar como a maioria das pessoas, ou ainda, ter necessitado da doação de gametas de terceiros para gerar o filho. A forma como cada casal lida com a sua experiência de infertilidade e com o tratamento de reprodução assistida irá refletir no modo como esse assunto será tratado com o  filho. Para os casais que trabalharam bem, psicologicamente, as questões trazidas pela dificuldade de gravidez e tratamentos de reprodução humana assistida, geralmente, há uma abertura maior para conversar sobre esse assunto. Já para os casais onde a infertilidade e os tratamentos para engravidar mantiveram-se, ainda, como uma área delicada, verificamos um certo receio em falar sobre o tema e o “não dito” acaba por se tornar um segredo para o filho. As conseqüências de um segredo para o psiquismo de uma criança nunca são positivas, já que o “não dito”, na maioria das vezes, é sentido ou percebido de alguma forma por elas e pode transformar-se em um sintoma, pela falta de entendimento e fantasias mobilizadas (ex.: dificuldade de aprendizagem, agressividade, insônia, enurese noturna etc). A maior parte dos pais que omite da criança a forma que a mesma foi concebida busca proteger o filho de algo que eles julgam poder trazer-lhe sofrimento. Há pais que temem também que a criança possa sofrer algum tipo de discriminação, pois, apesar dos tratamentos de reprodução assistida serem cada vez mais utilizados, as crianças, frutos dos mesmos, ainda são minoria. Os tratamentos de infertilidade fazem parte da história das crianças nascidas por meio deles e esse fato pode ser revelado a elas (se for vontade de seus pais) de forma aberta e natural, desde cedo, já que não há nada de errado com esse acontecimento. Não é preciso torná-lo um segredo. A verdade é sempre o  melhor caminho. A forma como cada pai e cada mãe escolhe contar esse fato para seu filho pode revelar à criança o quanto ele foi desejado, antes mesmo de nascer, pois seus pais não mediram esforços para tê-lo por perto. 

Luciana Leis é psicóloga. É especializada no tratamento de casais com problemas de fertilidade.

Fale com ela: luciana_leis@hotmail.com

http://twitter.com/lucianaleis

www.lucianaleis.wordpress.com

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