Reprodução Pós-Mortem

Analisando com atenção a nova resolução do Conselho Federal de Medicina sobre Reprodução Humana Assistida, onde, dentre outras mudanças, ficou autorizado o uso de material genético deixado por uma pessoa que já morreu (desde que em vida ela tenha manifestado esse desejo por escrito), penso ser importante discutirmos algumas questões que estão por trás deste tema. Aspectos éticos, morais e psicológicos podem estar relacionados a esse assunto, como por exemplo, o direito que a criança tem de conhecer e conviver com um pai, questões relacionadas aos interesses financeiros, dificuldades em aceitar a perda do marido, dentre outros fatores. Primeiramente, é preciso entender quais as principais motivações subjetivas que levam uma viúva a solicitar o uso do sêmen de seu marido falecido. Uma mulher com dificuldade em lidar com o luto do marido pode perceber nesta forma de tratamento uma possibilidade de resgatar algo com ele, principalmente, quando o casal tinha o desejo de constituir uma família com filhos. Neste caso, nota-se uma dificuldade em abrir mão do sonho da família que não pôde ser constituída com aquele homem e, de certa forma, a criança pode entrar para substituir o marido perdido. Algumas mulheres, após a morte do ente querido, podem também se deparar com sentimentos de abandono e solidão imensuráveis. Uma criança pode preencher o vazio que fica, trazendo também a alegria de volta com uma “nova vida”. São muitas as fantasias e expectativas que podem ser mobilizadas com essa oportunidade que a medicina nos sinaliza, uma vez, que pelo modo de reprodução natural isso nunca seria possível. Penso ser complicado julgarmos se é certo ou errado que essas mulheres busquem por tratamento, já que cada pessoa tem suas reais motivações para se submeter a esse tipo de procedimento. No entanto, acredito ser imprescindível que essas viúvas possam, antes da realização do procedimento de reprodução assistida, conversar com um profissional da saúde mental para elaborarem melhor questões relacionadas ao luto pelo marido e ao reconhecimento desta perda. Somente a partir deste processo, seria possível uma escolha consciente e menos arriscada para a realização desta técnica.

Luciana Leis

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