Questões emocionais relacionadas à ovodoação

A grosso modo, o procedimento de ovodoação consiste em uma técnica de reprodução assistida onde uma mulher que realiza tratamento para engravidar, doa parte de seus óvulos para uma outra (receptora, a qual não possui óvulos ou os possui em qualidade diminuída) para serem fertilizados com o sêmen do marido desta última ou ainda sêmen doado. Na prática clínica, observo que, para a maioria das mulheres, não é nada fácil abrir mão de um filho geneticamente seu para realizar o sonho de ser mãe; já que ter um filho também está relacionado à satisfação narcísica de poder dar continuidade à sua descendência, de poder ver parte de seus traços físicos na criança e, de certa forma, de se fazer “imortal” através dela. Deste modo, cogitar o procedimento de ovodoação implica, necessariamente, em abrir mão do filho biológico para poder ampliar as possibilidades de concretização do desejo de ser mãe. Porém, justamente por não ser nada fácil lidar com essa situação, noto que algumas mulheres que referem desejar realizar esse tipo de procedimento, no fundo, não querem se ater ao que ele realmente significa: adoção de óvulos. Assim, podem passar a criar estratégias psíquicas para camuflarem o conceito e as implicações desse tipo de tratamento, sendo que o procedimento de “mix de óvulos” é uma possibilidade que passa pela cabeça de várias destas pacientes para conseguirem realizar a ovodoação. Mas afinal, o que é “mix de óvulos”? “Mix de óvulos” é o nome dado pelas pacientes (e por alguns médicos que concordam em realizar esse tipo de técnica) ao procedimento onde se misturam os óvulos da doadora com os da paciente, em uma única transferência de embriões. Desta maneira, a origem genética do filho seria desconhecida, a menos que se realizasse um teste de DNA no futuro. Não irei discutir neste artigo as questões éticas envolvidas neste processo, mas sim as questões emocionais que estão por trás disso tudo. Penso que as pacientes que cogitam realizar esse tipo de procedimento apresentam dificuldades em aceitar a ovodoação de fato, assim, acabam se “enganando” para conseguirem se submeter a esse tipo de técnica em busca de melhores resultados de gravidez, porém, sem precisarem lidar com luto pela perda do filho biológico e, a partir disso, possível adoção do óvulo de uma outra mulher. Deste modo, com a negação do aspecto de não poder vir a ter um filho biológico, parece que fica mais fácil assumir a maternidade, como se esta dependesse somente de aspectos genéticos e não de bases emocionais de vinculação como esta realmente se configura. Além disso, fantasmas a respeito de dúvidas no futuro quanto ao filho ser realmente geneticamente relacionado a ela podem surgir, principalmente em casos onde o filho não corresponda às idealizações desta mãe. Acredito que não há como se submeter a um processo de ovodoação sem trabalhar as questões emocionais que estão vinculadas a esse procedimento, das quais fazem parte perdas e ganhos, sendo que cada paciente terá que avaliar subjetivamente o que realmente é possível para si, para não acabar se prejudicando com as diversas possibilidades de ter um filho que a medicina nos proporciona.

Luciana Leis

3 respostas em “Questões emocionais relacionadas à ovodoação

  1. estou com essa duvida,tenho um filho de 13 anos.fiz um fertilizaçao,mas o ovulo nao progrediu tenho 44anos e nao estou satisfeita em ter apenas um filho o tempo passou,preciso de ajuda…

    • Olá, Neide!
      VC precisa ver com seu médico se ainda é possível realizar fertilização in vitro com seus próprios óvulos, para uma nova tentativa. Se não, a ovodoação é uma possibilidade de vc poder engravidar novamente, porém, a criança, neste caso, não seria relacionada geneticamente a vc.
      Boa sorte!

    • pde não ser a mãe genética, mas a mãe biológica é quem gera na minha opinião, pois é ela quem da tudo pra criança, oxigênio, alimentação, trocas fisicas, orgânicas, psicológicas, etc. Por isso é a biológica, dentro dela este óvulo sairá bem diferente se tivesse sido gerado na mão genética, por isso acredito que a biologia está nestas trocas.

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