Como compreender o caso das trigêmeas no Paraná

O caso recente dos pais de trigêmeas, que realizaram tratamento para conseguirem engravidar, e que rejeitaram uma das crianças no Paraná, já que a intenção do casal era ter somente dois filhos (post anterior), nos abre a possibilidade de pensarmos a respeito do real desejo de ter filhos. Primeiramente, penso ser necessário clarificar que nem todos os casais que se propõem a ter um filho realmente o desejam, embora muitas vezes eles próprios acreditem que sim. O desejo por um filho se relaciona ao fato de querer ter uma criança para cuidar desta, passar experiências, educar, dar e receber afeto. Além disso, esse desejo também está vinculado às nossas necessidades de satisfação narcísica, ou seja, de poder ver na criança nossos traços, desta ser um representante da continuidade de nós mesmos, reafirmação de nossa feminilidade/masculinidade, de podermos corresponder às expectativas de nossos pais que aguardam por um neto entre outros. No entanto, quando o desejo de satisfação narcísica através da criança se sobressai ao desejo de querer cuidar e conviver com ela, podemos questionar se realmente existe um verdadeiro desejo por um filho, dando a ele um lugar de pessoa separada dos desejos de seus pais. Não conheço o casal pais das trigêmeas, portanto, não tenho como afirmar se realmente desejavam ou não filhos, porém, toda essa história nos permite abertura para refletirmos sobre as diversas nuances envolvidas no desejo de filhos. Outro aspecto a ser pensado a partir desse acontecimento, é o quanto um casal pode lidar com o fato da maternidade e paternidade ser diferente da forma como eles idealizaram e assim, poderem aceitar essa nova realidade. Penso que esse casal poderia ter sido bastante beneficiado com um tratamento psicoterápico desde o início do tratamento de reprodução assistida, uma vez que teriam a chance de refletirem melhor a respeito da maternidade e paternidade e também sobre as implicações que esses tipos de tratamentos trazem consigo, muitas vezes esperadas como também inesperadas. Considerando-se o exposto até o momento, cada vez mais se mostra necessário o acompanhamento psicológico do casal em meios aos tratamentos de reprodução humana, possibilitando que amadureçam para o papel de pais e auxiliando-os a lidarem melhor com acontecimentos que não idealizaram.

Luciana Leis

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