Contar ou não contar sobre os tratamentos no ambiente de trabalho?

Segue abaixo uma reportagem, com minha participação, para a Revista Canal RH, espero que apreciem e reflitam, já que, infelizmemte, ainda vivemos numa sociedade machista e somos, muitas vezes, desconsideradas em aspectos da nossa condição feminina.

Teoricamente, vale o discurso de que devemos sempre adotar uma postura transparente nas relações profissionais, mas, na prática, ainda existe muito preconceito quando o assunto é maternidade. No caso, falar abertamente sobre a possibilidade de gravidez que nem é concreta pode, sim, afetar os rumos profissionais. Muitas mulheres se queixam que, ao anunciar a gravidez ou que pretendem dar início a um tratamento, passam a ser tratadas de forma diferente. “É fato que não interessa às organizações que as mulheres engravidem e muitas deixam de contratar aquelas que estão em idade reprodutiva”, afirma Tânia Casado, professora doutora da FEA-USP e coordenadora do Programa de Desenvolvimento de Carreira da FIA. Foi por isso que a psicóloga Leila Knoll, de 41 anos, atualmente gerente de Recursos Humanos da On Set, empresa da área de tecnologia com sede no Vale do Paraíba (SP), admite ter feito tratamento escondido da companhia em que atuava havia seis anos. “A minha chefe era solteira, totalmente disponível para o trabalho e não tínhamos uma relação de confiança”, justifica. O jeito foi contar com a cumplicidade e discrição de uma colega mais próxima para quebrar o galho quando tinha de se ausentar para fazer exames e repousar. Detalhe: Leila mora em São José dos Campos e fez o tratamento em São Paulo. “Quando contei para minha chefe, ela ficou chocada. Acho que queria ter me demitido na mesma hora”. Para a professora Tânia, qualquer pessoa tem de fazer jus ao seu salário, ser ética, tratar bem os colegas, entregar o prometido, mas, em se tratando de algo tão íntimo, é melhor manter a privacidade. “Quanto mais gente ficar sabendo, mais pressão, e é isso que a mulher que se submete a um tratamento para engravidar menos precisa naquele momento”, avalia. Para o consultor empresarial José Luiz Tejon, autor de diversos livros, entre eles O voo do cisne e A grande virada – 50 regras de ouro para dar a volta por cima, a questão envolve o papel das lideranças na criação de um ambiente saudável e de confiança para que as pessoas se sintam confortáveis em expor questões pessoais no trabalho. “Às vezes, culpa-se o mercado, as corporações, quando, muitas vezes, o problema está no gestor inseguro e malpreparado para lidar com a equipe”, diz. “Mas também é preciso considerar que o gestor traça as estratégias, faz planejamento, precisa saber com quem vai contar, e o diálogo evita que ele se sinta traído”. A psicóloga Luciana Leis, de São Paulo, que se especializou no atendimento a casais inférteis, já viu de tudo no consultório ao longo de dez anos: de mulheres que foram demitidas ao anunciarem que estavam fazendo tratamento a profissionais que tiveram de optar entre seguir em frente (é muito difícil um tratamento dar certo de primeira) ou receber uma promoção. “É um peso que só a mulher carrega”, comenta Luciana. Veja o caso da executiva Claudia Ajbeszyc, de 39 anos, mãe dos gêmeos Juliana e Rafael, de 9 anos, gerente de Desenvolvimento Organizacional da ETH, braço do Grupo Odebrechet que trabalha com etanol. Na época em que se submeteu a um tratamento de reprodução assistida, ela trabalhava na Accenture e abriu o jogo para o chefe com a promessa de que daria conta do recado. Mas não deu. Grávida de trigêmeos, cuja gestação foi considerada de alto risco, Claudia foi obrigada a trabalhar em casa a partir da 20ª semana. “Podia ter saído de licença, mas não quis deixar a empresa na mão”, lembra. Claudia só interrompeu as atividades quando foi parar no hospital, dez semanas depois, e o médico a proibiu de trabalhar, mesmo a distância. Os bebês nasceram prematuros, duas semanas depois. Um deles não sobreviveu e os outros dois ficaram na UTI por dois meses. “Essa foi a pior parte”, confessa. Quando finalmente foram para casa, já era quase hora de voltar a suas atividades. Então Claudia negociou um mês de férias pendentes em troca de dois meses de trabalho por meio período. “Não fazia horário de almoço para não perder tempo”, recorda-se. Para voltar a dar conta do recado, a executiva montou uma estrutura em casa que lhe permitisse retomar full time. “Estava louca para trabalhar”, lembra. Mas, verdade seja dita, a carreira estagnou depois da maternidade. “Não recebi mais aumento, promoção, oportunidades”, constata. Um ano depois, Claudia pediu demissão e admite: “Dei alguns passos para trás até encontrar algo que valesse a pena e fosse adequado à minha nova realidade”. Para Leila, mãe dos trigêmeos Ana Clara, Maria Giulia e Arthur, de 7 anos, a maternidade também representou uma virada. “Horas antes de retornar ao trabalho depois da licença, recebi um telefonema dizendo que poderia ficar mais um mês em casa. Naquele momento tive certeza de que estava demitida”, lembra. Como faria para manter a família sem o emprego, cuja renda era parte efetiva do orçamento familiar? A executiva não perdeu tempo e foi à luta. Na primeira entrevista de emprego deu de cara com a nova realidade. “A entrevistadora não conseguiu disfarçar quando eu disse que era mãe de trigêmeos. Ficou boquiaberta e falou que eu não conseguiria”, lembra-se. Preocupada, Leila consultou uma especialista em recolocação de carreira que a orientou a omitir a tripla maternidade, pelo menos num primeiro momento. A colega Claudia, também gestora de RH, faz coro e afirma que sentiu na pele o preconceito que, segundo ela, inviabilizou a continuidade de vários processos de seleção. “Sou de RH. Conheço o discurso”, diz. “Está claro que as empresas não estão preparadas para lidar com as mulheres que têm necessidade de recorrer a tratamentos para engravidar”, emenda Leila. Pesquisa feita pela Regus, fornecedora de espaços de escritórios, com mais de 10 mil companhias em 78 países, aponta que o número de organizações que têm intenção de contratar profissionais que são mães caiu cerca de um quinto em 2010, na comparação com o ano anterior. Dessas organizações, 31% admitem ter preocupações em relação às mães que estão voltando à ativa por temerem um novo afastamento por causa de mais uma gravidez, da falta de comprometimento e de atualização. Depois de ter filho é claro que a disponibilidade de uma profissional, de modo geral, não será a mesma, ainda mais com dois ou três bebês em casa. “Mas as companhias e seus gestores ainda confundem tempo à disposição com disponibilidade para a empresa”, afirma a professora Tânia. As corporações, segundo a especialista, precisam rever o papel da mulher, pois jogar fora talentos não é inteligente. “Para algumas pessoas, empreender pode ser maravilhoso, mas eu não aposto nisso como uma alternativa plena. É preciso um novo contrato entre empregador-empregada para permitir que a mulher seja completa, e isso inclui colocar na agenda a questão do meio período”. Mesmo com todas as dificuldades, Leila acha que voltar à ativa foi uma “benção”. “Quis ser mãe, mas nunca quis deixar de ser uma profissional”, afirma. “A gente fica mais focada, sabe lidar com prioridades, consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo”, diz Claudia, que garante: “Tenho certeza que sou uma funcionária muito melhor depois da maternidade”. Para a professora Tânia, a preocupação da mulher que trabalha e mãe é natural, legítima e revela, entre outras coisas, que essa mulher se sente responsável por seus atos e suas escolhas. “E isso não é o que se espera de um bom profissional?”, questiona a professora. Além do mais, quem enfrenta um tratamento para engravidar, que envolve foco, persistência e ter de lidar com o imponderável – pois não há garantia de que se vai obter retorno do investimento –, está mais do que preparada para encarar desafios. Por isso, apesar das incertezas que todas as mulheres passam em relação ao futuro profissional, Sandra Turchi está feliz com a chegada do Lucca, no início de abril de 2011, para estar ao seu lado no Dia das Mães. “Não é fácil, a gente enfrenta muitas mudanças, mas realizar o sonho de ser mãe não tem preço.”

Fonte: Revista Canal RH por Carla França

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