Braços Vazios

Olá pessoal!

Hoje vou dividir com vcs uma história que recebi para que pudesse ser colocada neste espaço. É uma história de dor e sofrimento, ainda está em processo de elaboração, mas que já começa ter ares de esperança de que uma nova fase- e melhor- possa surgir. Esperamos que num momento futuro o nome desta história possa mudar de “Braços Vazios” para “Braços Preenchidos”.
Luciana Leis

BRAÇOS VAZIOS

“Eu comecei a suspeitar que estava grávida em uma viagem de férias para Buenos Aires com meu marido. Minha menstruação estava atrasada e meus seios estavam muito inchados e doloridos. Cogitei a possibilidade de estar grávida, mas não dei muita atenção, porque já fazia quatro anos que eu havia engravidado pela segunda vez e nas duas gestações anteriores eu perdi o bebê com cerca de 08 semanas. Havíamos feito os exames para começarmos a fazer uma reprodução assistida e, na minha cabeça, engravidar de forma natural aos 43 anos, depois de dois abortos espontâneos, era praticamente impossível. Na viagem de volta eu vi um filme no avião e não parei de chorar o tempo todo. Mais uma vez eu comecei a pensar na possibilidade de uma gravidez e então, 02 dias depois fiz um teste de farmácia. Positivo. Procurei minha médica no dia seguinte e logo depois confirmei a gestação. Ainda estava bem no começo e fiz o primeiro ultrassom com 06 semanas, mais ou menos. Quase morri de alegria quando ouvi o coraçãozinho batendo. Nas minhas duas gestações anteriores eu não tive essa oportunidade, porque da primeira vez eu só descobri a gravidez quando estava perdendo o bebê, com um sangramento enorme, e na segunda eu tive uma gestação anembrionária, ou seja, não havia nada dentro do ‘ovo’. Então, ouvir aquele coração ainda se formando batendo dentro de mim foi uma alegria imensa. Fiz todos os exames que a médica me pediu, continuei a acompanhar o desenvolvimento do meu bebê e não contamos a ninguém sobre a gravidez até que eu completei 12 semanas, quando o risco de perdê-lo já era bem menor. Até começarmos a contar para as pessoas sobre a gravidez parecia que aquilo não estava acontecendo, que era um sonho, uma coisa com outras pessoas, não sei explicar. Mas, aí a realidade se materializou e começamos a comemorar a vinda do nosso bebê. Com 16 semanas de gestação, exatamente no dia 11 de Outubro de 2012, descobrimos que o nosso bebê era o Antonio. Fiquei muito feliz por ser um menino, mas se fosse uma menina eu também teria ficado feliz, não importava muito o sexo, porque estávamos os dois radiantes com a minha gravidez. Saímos do laboratório e fomos comemorar, ligar para a nossa família, para os nossos amigos. Tínhamos várias amigas grávidas também, seriam vários bebês nascendo na mesma época. Uma época de muitas graças e muitas alegrias. Neste período eu resolvi mudar de médico. Voltei a procurar um médico em que eu ia há alguns anos e, naquele momento, quis que ele me acompanhasse na gestação. Eu sempre gostei muito dele e acho que fiz a escolha certa. Nunca vou esquecer o sorriso com que ele me recebeu de volta no consultório e o abraço que ele me deu pela minha gravidez. Minha gravidez transcorreu normalmente. Não tive enjôos – nem sei o que é isto – engordei pouco, fiz exercícios, drenagem, cuidei da minha alimentação, tomei ácido fólico, vitaminas, fiz tudo direitinho. Fiquei nervosa com o trabalho, com coisas do dia a dia, mas nada que representasse um risco enorme para o meu filho e para mim. Tive uma gravidez muito tranquila, na verdade. Comecei a sentir falta de ar nos últimos meses, não dormia direito, sentia muito calor e fiquei de muito mau humor, mas fisicamente eu sempre estive ótima. Meus exames e os do Antonio foram excelentes. Ele se desenvolveu normalmente, era perfeito, cresceu bastante, engordou, minha barriga ficou enorme. Tínhamos muita expectativa com o nascimento dele. Fomos conhecer duas maternidades, marcamos curso para gestantes, tínhamos uma data sugerida para o parto, fizemos o quarto, compramos berço, cômoda, roupas, brinquedos, enfeites. Contratei uma babá, agendei consulta com uma pediatra, enfim, preparamos tudo para a chegada dele. Assim que eu completei 32 semanas comecei a achar que ele estava se mexendo menos. Fiquei preocupada em razão das coisas que eu li na internet e liguei para o meu médico, que me tranquilizou porque, até então, tudo tinha transcorrido normalmente com o meu filho. Não havia motivo para nos preocuparmos, porque em nenhum exame houve a indicação de que alguma coisa pudesse dar errado. Mas, no fundo eu estava preocupada. No dia 04/02/2013 eu acordei de madrugada com umas contrações sem dor e uns calafrios, mas fiquei relativamente tranquila, porque havia lido que essas contrações são normais no final da gravidez. Mesmo assim entrei em contato com o médico e ele me disse para não me preocupar, mas para prestar atenção nos movimentos fetais. Respondi a ele que aparentemente os movimentos estavam normais. Eu realmente achei que estavam. E então, no dia 06/02/2013 fui fazer uma ultrassonografia de rotina às 08h00. Meu marido me acompanhou, como em todas as outras vezes, mas eu estava ansiosa, queria fazer o exame logo e tirar as preocupações que eu tinha na cabeça. Sou muito impressionada e qualquer coisa, ainda que simples, me deixa preocupada. Logo que começamos o exame, a médica – dra. Mariza, nunca vou esquecer o nome dela – começou a me fazer algumas perguntas diferentes, se eu havia tido alguma gripe, alguma infecção. E veio a notícia que mudou nossas vidas para sempre: o nosso bebê tão amado, o nosso filho Antonio não tinha mais batimentos cardíacos. Meu marido entrou em desespero na hora e eu fiquei tentando acalmá-lo. Não conseguia chorar, não entendia direito o que estava acontecendo. Parecia que não era comigo, não sei explicar. A médica começou a falar um monte de coisas, pegou água para o meu marido e me disse para ligar para o meu médico. Consegui falar com uma pessoa que atendeu o seu celular, ele estava fazendo um parto e não podia falar comigo. Pegamos o exame, arrasados, e fomos para o consultório do meu médico, esperar por ele lá. Toda a nossa vida virou de cabeça para baixo. Fui internada no mesmo dia, mas não conseguia acreditar que meu filho tinha morrido. Eu estava com uma barriga enorme, linda, mas carregava um bebê morto. Foi um dos dias mais tristes da minha vida. Até agora eu não sei como fui para o hospital, como eu consegui arrumar a mala, como me lembrei de pegar escova de dentes, livro, pijamas. Não sei como eu sobrevivi àquele dia. Quando nós chegamos em casa, voltando do consultório do médico, a moça que trabalha em casa estava passando as roupinhas do Antonio. Agora, quando eu me lembro, não sei como eu passei aquelas horas, sinceramente. Meu médico foi me ver no hospital para explicar o que seria feito. Disse-me que o melhor seria induzir o parto, para que eu não tivesse que fazer uma cesárea, mas que isto demoraria algumas horas. Concordei com ele e passei a noite toda e o dia seguinte tomando medicamentos para induzir o parto do meu filho morto. Mesmo assim, não consegui ter dilatação e tive que fazer a cesárea. Meu filho nasceu morto às 19h16 do dia 07/02/2013, com 1,920 kg e 33 semanas. Não quis vê-lo, não tive coragem. Hoje me arrependo um pouco. Mas, não sei se suportaria a dor, na realidade. Tivemos que decidir o que fazer com o corpinho dele e decidimos cremá-lo. Assim foi feito e alguns dias depois, no dia 21/ 02/2013, fomos buscar as suas cinzas e levá-las em um lugar bonito. Quando entrei no carro, saindo do crematório, meu marido olhou para mim e disse que sempre o imaginou andando numa cadeirinha no banco de trás. Nunca em um saquinho de plástico. Foi a coisa mais triste que eu já ouvi, nunca vou me esquecer disto. Deixamos suas cinzas em um regato, no Templo Zu-Lai. Não somos budistas, mas é um lugar sagrado e muito tranquilo. Achamos que lá ele estaria em paz. Hoje faz 46 dias que tudo isto começou. Não sei dizer como eu tenho vivido. Choro todos os dias, uns mais e outros menos. Se tudo tivesse corrido bem, meu filho teria nascido esta semana. Se tudo tivesse saído como planejamos, hoje estaríamos com ele dormindo no berço no quarto ao lado, seguro, saudável, vivo. O berço continua montado, não tivemos coragem de desmontá-lo, tirá-lo do quarto, mandá-lo para o depósito na garagem, junto com as outras coisas do Antonio. O berço está lá, vazio. Tenho feito terapia, fui ao psiquiatra, venho tomando remédio para dormir e controlar a ansiedade, mas a dor não passa. E não vai passar nunca. Talvez um dia diminua, o tempo faz milagres, alivia as lembranças ruins. Mas, nem o tempo tem o poder de curar uma dor tão imensa. Pode atenuar, mas não vai curar. Fui a um centro espírita à procura de respostas, à igreja, tenho feito minhas orações à N. Sra.. Pelo menos tenho conseguido rezar. Nos primeiros dias eu senti muita raiva de Deus, me senti abandonada, desprotegida. E ainda me sinto assim, às vezes. Eu tinha muitas dúvidas a respeito da maternidade, sempre protelei a decisão de ser mãe. Há alguns anos vínhamos falando no assunto, procuramos mais de um especialista em fertilização, mas nunca começamos o processo, sempre vínhamos adiando. Eu não queria fazer inseminação, passar por todo o desgaste de um tratamento doloroso, pela expectativa do resultado. Mas, estava disposta a fazer, quando engravidei de forma natural. Durante a minha gravidez eu fiquei muito preocupada em não engordar, em não ficar feia, inchada. Quanta besteira! Tinha convicção de que não queria engravidar de novo, que só queria ter 01 filho, que não queria passar por outra gravidez. Hoje, engravidar de novo é tudo o que eu mais quero. Todos os dias eu peço à N. Sra. das Graças que me conceda a graça de poder sentir de novo uma vida crescendo no meu ventre. Todos os dias eu peço a Deus que me dê outra chance, que me dê a oportunidade de ser mãe de um bebê perfeito, saudável, que nasça cheio de luz e, principalmente, vivo. Eu mudei muito. A dor de perder um filho não tem como ser descrita, não tem como mensurar. Tem pessoas que acham que só porque ele não nasceu vivo, só porque eu não o vi a dor é menor. E não é menor, a dor é imensa. Machuca demais quando alguém desqualifica o que eu sinto. Eu convivi com o meu filho dentro de mim por 08 meses, eu o senti mexer, vi minha barriga crescer, ficar enorme, senti os desconfortos e a imensa alegria de ter uma vida crescendo aqui dentro. Dói demais quando eu penso que eu nunca vou ver o Antonio, nunca vou sentir o cheirinho dele, nunca vou ver os seus olhinhos, nunca vou senti-lo mamar no meu peito, nunca vou poder vê-lo dormir, crescer, aprender a viver. Nunca, por toda a minha vida, eu vou ter o meu filho nos meus braços. Hoje eu não tenho mais dúvidas sobre a maternidade. Quero muito ser mãe. Quero muito conseguir gerar uma outra vida, me sentir grávida de novo. Mas, faço 44 anos daqui a 03 semanas e estou muito preocupada. Meu médico tem convicção de que é possível que eu engravide de novo naturalmente, mas eu tenho muitas dúvidas. Quero muito que ele esteja certo. Não sabemos o que matou nosso filho. Todos os exames que eu fiz até agora não indicaram a causa. A autópsia também não foi conclusiva e meu médico disse que o cordão estava intacto, a placenta não tinha nada de anormal e meu filho não tinha nenhuma síndrome, pelo menos não aparente. Ele simplesmente se desligou de nós e estamos no escuro, sem chão e sem saber o que houve com ele. Decidimos consultar um especialista em medicina fetal, para tentarmos achar alguma explicação para a morte do nosso filho. Talvez tenhamos alguma pista, mas não sei. E estou decidida a fazer a inseminação, se for preciso. Na última quinta-feira eu estive no meu médico e ele me viu tão desesperada que me deu o telefone de 02 especialistas em reprodução humana, para que eu consulte e saiba a opinião deles. Fui ao consultório muito desesperançada e saí de lá com muita raiva do meu médico, pelas coisas que ele me disse e pela bronca que ele me deu, por estar desistindo. Depois, parei para pensar e acabei ficando grata a ele, porque ele só me disse coisas positivas, para eu não desistir de ser mãe, porque eu tenho todas as condições para que isto aconteça naturalmente. Mas, tenho dificuldades de acreditar nele. Quero muito acreditar. Espero que ele esteja certo. Estamos retomando nossa vida sexual e estarei liberada para tentar engravidar de novo daqui a 01 ou 02 meses. Meu corpo já se recuperou e, felizmente, tenho uma saúde ótima. Vamos investigar tudo o que for preciso e tentar descobrir o que levou à morte do Antonio. Se for necessário faremos a inseminação. Não vou desistir de ser mãe. Jamais vou me esquecer do meu filho e a saudade que eu sinto dele não vai passar nunca. Mas, quero muito sentir outra vida crescendo dentro de mim. Quero muito sair da maternidade com o meu filho nos braços. Quero muito trazer para casa o meu filho saudável, perfeito, vivo. Voltei para casa sem o Antonio, sem o meu bebê tão amado, tão esperado, tão desejado. Hoje eu tenho um corte na barriga, uma dor imensa no coração, a alma em pedaços e os braços vazios. Espero que isto mude em breve.”

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6 respostas em “Braços Vazios

  1. Depoimento contundente e íntegro. Certamente a depoente vai encontrar o que procura pois tem a generosidade, inclusive de compartilhar sua experiência com outras pessoas que sofrem com questões parecidas. Rosane, psicóloga, sociopsicodramatista.

  2. Vivi o mesmo drama, a diferença foi o período gestacional, 37 semanas e a minha idade, e lá se foram 3 anos e sem as respostas, sinto muita insegurança em engravidar novamente.

  3. Oie, querida! Estou passando por isso agora, dois abortos iguais ao seus primeiros. 😩 haja forças! Não perca a esperança… 😊👶👍

  4. Olá! Vivi uma situação parecida. Perdi meus bebês gemeos depois de uma bolsa rota. Eles nasceram prematuras mas não sobreviveram. Espero que tudo tenha ficado mais leve para vc.

  5. Olá, acabei de passar pela mesma situação. Estava grávida de quase 17 semanas de um menino, e numa ultrassom de rotina descobrimos que o bebê estava sem batimentos. Foi o pior dia da minha vida, a pior notícia da minha vida com certeza. Tenho uma filha de 6 anos e ela também ficou arrasada pela perda do irmão tão desejado. Eu, que não tinha certeza se queria outro filho, agora sei que ficou um buraco na nossa familia. Pior que não me animo a engravidar novamente pois já tenho 44 anos… Enfim, boa sorte pra vc, que venha uma nova gravidez e um bebe saudável. Abraçso

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