A medicalização do parto e do desejo também

partoAcabo de assistir ao filme “Renascimento do Parto” e o indico a todos vcs!

O documentário questiona o número excessivo de cesarianas em todo o Brasil, uma vez que a frequência deste tipo de parto chegou a 52,3% de todos os partos em 2010, sendo que, nos hospitais privados de São Paulo, essa taxa ultrapassa os 90%; lembrando que o recomendado pela OMS é que essa taxa não ultrapasse 15% (Folha online).

O filme trata, de forma sensível, os benefícios do parto normal, tanto em hospitais quanto em casa, destacando a importância da humanização em meio a esse processo. Mesmo nos casos onde a cesariana se faz necessária, destaca o quão relevante é o contato mãe-bebê logo após o parto, visando deixar esse evento o mais afetuoso e aconchegante possível para a mãe e seu bebê.

Para mim, o ponto forte do documentário foi o de buscar devolver às mulheres sua autonomia sobre o ato de parir. O filme faz isso através de uma reflexão sobre esse tema, expondo que desde que a figura do médico e dos hospitais entraram em meio a esse contexto, as mulheres se desapropriaram de algo que lhes pertencia e era natural, atribuindo essa responsabilidade aos médicos, que estudaram para cuidar de seus corpos.

Porém, o processo do parto é natural, na natureza as fêmeas parem sozinhas, seguindo seus instintos. Claro que figura do médico é essencial em certos casos. Aliás, para muitas mulheres, pode ser mais confortável e seguro ter um médico por perto assistindo a esse momento, mas o ideal é que ele não seja o protagonista desta história. O parto não precisa ser medicalizado, pois é algo da natureza da mulher.

O que acontece é que, com tantos recurso tecnológicos a nosso dispor, muitas vezes nos tornamos inseguros para realizarmos tarefas que antes eram tidas como naturais à nossa espécie.

Aproveito para incluir nessa reflexão, certos casos que a medicina reprodutiva se apropria, sem realmente ter uma indicação. É fato que para casos onde há realmente uma infertilidade diagnosticada, as técnicas de reprodução assistida são para lá de eficazes. No entanto, muitos casais que poderiam engravidar em casa (casais subférteis) ou com a ajuda de uma técnica de baixa complexidade (inseminação artificial ou coito programado), já tem logo a indicação de fertilização in vitro de seu médico, que desconsidera completamente seu potencial natural de engravidar de um modo sem tantas intervenções.

Assim como o parto está sendo cada vez mais medicalizado, com o desejo de filhos também está acontecendo a mesma coisa. Infelizmente, percebo que, para alguns médicos, é muito melhor indicar uma fertilização in vitro (onde financeiramente ele lucrará mais) do que uma inseminação artificial ou um coito programado, nos casos onde essa indicação se fizer possível.

Além disso, de uma só vez ele “resolve” a insegurança do casal, permitindo-lhe uma chance de gravidez muito maior do que com as técnicas de baixa complexidade, no entanto, subliminarmente, retira do casal- que tem a indicação de inseminação ou coito programado- a crença de que o sexo em casa também funciona.

Luciana Leis

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