Luto e infertilidade

lutoOlá, seguidores!

Lendo a coluna do psicanalista Contardo Calligaris no jornal Folha de SP, na última quinta-feira, sobre “Como viver um luto”, me surgiu a vontade de escrever sobre os diversos lutos que quem enfrenta a infertilidade precisa passar.

Antes de tudo, penso ser importante explicar que luto se refere à toda situação de perda, não necessariamente morte de alguém, mas algo que se tinha (ou acreditava-se ter) e se perdeu, por ex.: perda de um grande amor, do emprego, da saúde etc.

Acredito que o primeiro luto a ser elaborado por quem vivencia a dificuldade de gravidez é o luto pela perda da fertilidade. Sim, pois enquanto não “testamos” nosso corpo para tentar engravidar, acreditamos que tudo está perfeito, porém, quando com o passar dos meses o bebê não vem, precisamos assumir para nós mesmos que algo está errado, que talvez a gravidez não ocorra igual acontece para a maioria das pessoas e que o tratamento para infertilidade pode ser necessário.

Assumir para si mesmo a infertilidade não é nada fácil, é necessário lidar com a perda de uma certeza que até então tínhamos- “Meu corpo funciona bem e basta pararmos de nos prevenir que a gravidez virá”. Esse é o primeiro luto a ser elaborado e, somente a partir da aceitação da infertilidade, é que o casal estará aberto para os tratamentos para engravidar.

Já em meio aos tratamentos, outros lutos também podem ocorrer, por exemplo: quando o corpo não responde à medicação como seria esperado, quando não se tem óvulos ou embriões para a transferência no útero.

São situações duras; lembro-me de uma paciente, após coleta de 10 óvulos em uma fertilização in vitro e nenhum embrião fertilizado me dizer: “Estou péssima, só choro, parece que morreu alguém!”. E é assim mesmo, o sentimento de dor e tristeza fazem parte do luto e, para essa paciente, na ausência de embriões a serem transferidos, morreu ali toda a sua expectativa do bebê a caminho naquela tentativa.

A vivência do beta negativo talvez seja o mais temido e dolorido luto a ser vivenciado por quem faz tratamento. Por mais que se saiba, racionalmente, da possibilidade do tratamento não ter o resultado esperado, a confirmação de que “não deu certo” é muito dolorida, pois, inevitavelmente, o casal constrói um bebê em sua cabeça ao longo do tratamento e, o exame de um BHCG negativo faz todo o sonho ruir- ao menos momentaneamente.

A experiência de um BHCG negativo assemelha-se à vivência de um aborto, desse filho que parecia já existir e se foi. É muito importante que esse luto possa ser reconhecido e vivenciado, pois, nem sempre o psiquismo está preparado para tentar outro tratamento logo no ciclo seguinte.

Cada pessoa tem um tempo individual para vivenciar e significar os seus lutos, o respeito a esse tempo, sem atropelar-se e fingir que nada aconteceu, é saudável e colabora para o reequilíbrio diante dessa situação, uma vez que é necessário certo equilíbrio emocional para seguir em frente na busca do que desejamos.

Luciana Leis

 

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2 respostas em “Luto e infertilidade

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