Nova gravidez após experiência de aborto

abortoA experiência de passar por um (ou mais) aborto(s) não é nada fácil, afinal, perda de filho é uma das perdas mais difíceis de serem elaboradas, não segue a ordem natural da vida- onde os pais partem primeiro- e é um processo complicado conseguir dar nome e lugar à essa dor, que aliás, nem nome tem, pois quando um filho perde os pais fica órfão, já o contrário, não existe nome.

Trata-se de um enlutamento muito singular, não de alguém objetivamente conhecido, mas de um bebê imaginário, o qual já vinha construindo vínculos antes mesmo de nascer. Não é à toa que essa dor é tão profunda e a ferida que ela deixa de difícil cicatrização.

Além disso, por se tratar de uma morte tão precoce, o aborto tende a ter dificuldade em ser reconhecido como perda de alguém pela sociedade, a qual, em geral, não lida bem com a morte, principalmente, de bebês. Frases como: “Foi melhor assim, ter um filho com problema seria muito pior”, “Antes agora que não deu tempo de você se apegar!” entre outras, são bastantes ouvidas pelas mulheres que já abortaram e só prejudicam que o luto por esse filho possa ser elaborado.

Percebemos que a mulher que sofre aborto fica perdida emocionalmente diante dessa dor, onde sente-se triste pela perda, mas, ao mesmo tempo, não tem seu luto autorizado de ser vivenciado pelos que estão à sua volta.

Somado à isso, o “fator surpresa” que, na maioria das vezes, essa experiência traz consigo, colabora por dificultar ainda mais o trabalho de elaboração desse tipo de perda, pois, quando somos pegos desprevenidos por algo, esse algo tende a se tornar um evento traumático para nosso psiquismo. Assim, muitas mulheres que passaram por essa experiência tentam evitar lembrar desse acontecimento, virar a página; além disso, se armam de uma série de defesas psicológicas para evitar o sofrimento novamente (como se isso fosse possível) na gravidez de um outro filho.

Notamos que a nova gravidez de uma mulher que sofreu aborto anterior vem marcada de uma forma diferente, ou seja, por medos e inseguranças diferentes das mulheres que não passaram por esse tipo de experiência. O fantasma da possibilidade de uma nova perda atormenta a todo tempo essa gestante, a qual, na maioria das vezes,  passa a ter dificuldades de investir nessa nova gravidez por medo de um novo aborto.

No atendimento à essas mulheres percebo que há dificuldade em fantasiar o bebê, receio de contar às outras pessoas sobre a gravidez e medo de comprar o enxoval para o novo rebento.

Mathelin (1999)  explica que quando uma grávida prepara o enxoval do seu filho “fabrica” para além das roupas, os braços, as pernas, a imagem do corpo do seu bebê em sua cabeça. A criança começa a tomar forma não só no ventre de sua mãe, mas também em sua fala, no seu desejo.

Porém, se o luto pelo filho anterior não tiver sido vivenciado  e elaborado, o investimento nesse novo bebê  ficará prejudicado,  fazendo com que a mulher se mantenha em um constante estado de alerta e angústia nesta  gravidez. A dificuldade na diferenciação da gestação que não vingou da atual é muito comum e merece cuidado psicológico para que não venha atrapalhar o sossego e o cuidado da grávida para com seu novo bebê.

O acompanhamento psicológico pós aborto, auxilia a mulher a dar contorno e significados a essa experiência, abrindo espaço para um novo bebê, o qual é único e necessita do investimento emocional de seus pais.

Luciana Leis

 

 

Dicas de boas maneiras frente à perda gestacional

Olá, seguidores, hoje quero dividir com vcs um texto bem bacana que todos que sofreram aborto ou fracasso de tentativas de tratamento para engravidar , provavelmente, irão se identificar. O texto é de autoria desconhecida, porém, ele está no Blog da Dra Luciana Herrero. Boa leitura!

Carta de uma mãe que perdeu o seu bebêcoração despedaçado

Quando estiver tentando ajudar uma mulher que perdeu um bebê, não ofereça sua opinião pessoal sobre sua vida, suas escolhas, seus projetos para seus filhos. Nenhuma mulher nesta situação está procurado por opiniões  sobre porque isto aconteceu ou como ela deveria se comportar.

Não diga: É a vontade de Deus. Mesmo se nós somos membros de uma mesma congregação, a menos que você seja um dirigente desta igreja e eu estiver procurando por sua orientação espiritual, por favor, não deduza o que Deus quer para mim. A vontade de Deus é que ninguém sofra. Ele apenas permite. Apesar de saber que muitas coisas terríveis que acontecem são permitidos por Deus, isto não faz estes acontecimentos menos terríveis.

Não diga: Foi melhor assim havia alguma coisa errada com seu bebê. O fato de haver alguma coisa errada com o bebê é que me faz tão triste. Meu pobre bebê não teve chance. Por favor, não tente me confortar destacando isto.

Não diga: Você pode ter outro. Este bebê nunca foi descartável. Se tivesse a escolha entre perder esta criança ou furar meu olho com um garfo, eu teria dito: Onde está o garfo? Eu morreria por esta criança, assim como você morreria por seu filho. Uma mãe pode ter dez filhos, mas sempre sentirá falta daquele que se foi.

Não diga: Agradeça a Deus pelo(s) filho(s) que você tem. Se a sua mãe morresse num terrível acidente e você estivesse triste, sua tristeza seria menor porque você tem seu pai?

Não diga: Agradeça a Deus porque você perdeu seu filho antes de amá-lo realmente. Eu amava meu filho ou minha filha. Ainda que eu tenha perdido meu bêbê tão cedo ou quando nasceu, eu o amava.

Não diga: Já não é hora de deixar isto para trás e seguir em frente? Esta situação não é algo que me agrada. Eu queria que nunca tivesse acontecido. Mas aconteceu e faz parte de mim para sempre. A tristeza tem seu tempo que não é o meu ou o seu.

Não diga: Eu entendo como você se sente. A menos que você tenha perdido um bebê, você realmente não sabe como eu me sinto. E mesmo que você tivesse perdido, cada um vivencia esta tristeza de modo diferente. Não me conte estórias terríveis sobre sua vizinha, prima ou mãe que teve um caso parecido ou pior. A última coisa que preciso ouvir agora é que isto pode acontecer seis vezes pior ou coisas assim. Estas estórias me assustam e geram noites de insônia assim também como tiram minhas esperanças. Mesmo as que tenham tido final feliz, não compartilhe comigo.

Não finja que nada aconteceu e não mude de assunto quando eu falar sobre o ocorrido. Se eu disser coisas de antes do bebê morrer… Ou de quando eu estava grávida…não se assuste. Se eu estiver falando sobre o assunto, isto significa que quero falar. Por favor, deixe-me falar.  Fingir que nada aconteceu só vai me fazer sentir incrivelmente sozinha.

Não diga: Não é sua culpa. Talvez não tenha sido minha culpa, mas no fundo sinto que falhei.  Eu estou tão brava com meu corpo que você não pode imaginar.

Não me diga: Bem, você não estava tão certa se queria ter este bebê… Eu já me sinto muito culpada sobre ter reclamado sobre mal estar matinais ou que eu não me sentia preparada para esta gravidez ou coisas assim. Eu já temo que este bebê morreu porque eu não tomei as vitaminas, comi ou tomei algo que não devia nas primeiras semanas quando eu não sabia que estava grávida.   Eu me odeio por cada minuto que eu tenha limitado a vida deste bebê. Se sentir insegura sobre uma gravidez não é a mesma coisa que querer que meu bebê morra, eu nunca teria feito esta escolha.

Diga: Eu sinto muito. É o suficiente. Você não precisa ser eloqüente. As palavras dizem por si.           

Diga: Ofereço-lhe meu ombro e meus ouvidos.          

Diga: Vocês vão ser pais maravilhosos um dia ou vocês são os pais mais maravilhosos e este bebê teve sorte em ter vocês. Nós dois precisamos disso.   

Diga: Eu fiz uma oração por vocês. Mande flores ou uma pequena mensagem. Cada uma que recebi, me fez sentir que meu bebê era amado. Não envie novamente se eu não responder.       

Não ligue mais de uma vez e não fique brava (o) se a secretária eletrônica estiver ligada e eu não retornar sua chamada. Se nós somos amigos íntimos e eu não estiver respondendo suas ligações, por favor, não tente novamente. Ajude-me desta maneira por enquanto.            Não espere tão cedo que eu apareça em festas infantis e ou chás para bebes ou vibre de alegria no dia das mães. Na hora certa estarei lá.

Se você é meu chefe ou companheiro de trabalho:   Reconheça que eu sofri uma morte em minha família não é simplesmente uma licença médica. Reconheça que além dos efeitos colaterais físicos, eu vou estar triste e angustiada por algum tempo. Por favor, me trate como você trataria uma pessoa que vivenciou a morte trágica de alguém que amava. Eu preciso de tempo e espaço.

Por favor, não traga seu bebê ou filho pequeno para eu ver. Nem fotos. Se sua sobrinha está grávida, ou sua irmã teve um bebê há pouco, por favor, não divida comigo agora. Não é que eu não possa ficar feliz por ninguém mais, é só que cada vez que vejo um bebê sorrindo ou uma mãe envolta nesta felicidade, me traz tanta saudade ao coração que eu mal posso agüentar. Eu talvez diga olá, mas talvez eu não consiga reprimir as lágrimas.

Talvez ainda se passarão semanas ou meses antes que eu fique pelo menos uma hora sem pensar nisso. Você saberá quando eu estiver pronta. Eu serei aquela que perguntará pelos bebes, ou como está aquele garotinho lindo?

Acima de tudo, por favor, lembre-se que isto é a pior coisa que já me aconteceu.

A palavra morte é pequena e fácil de dizer. Mas a morte do meu bebê é única e terrível. Vai levar um bom tempo até que eu descubra como conviver com isto.

(autor desconhecida, adaptação Dra. Luciana Herrero)

Braços Vazios

Olá pessoal!

Hoje vou dividir com vcs uma história que recebi para que pudesse ser colocada neste espaço. É uma história de dor e sofrimento, ainda está em processo de elaboração, mas que já começa ter ares de esperança de que uma nova fase- e melhor- possa surgir. Esperamos que num momento futuro o nome desta história possa mudar de “Braços Vazios” para “Braços Preenchidos”.
Luciana Leis

BRAÇOS VAZIOS

“Eu comecei a suspeitar que estava grávida em uma viagem de férias para Buenos Aires com meu marido. Minha menstruação estava atrasada e meus seios estavam muito inchados e doloridos. Cogitei a possibilidade de estar grávida, mas não dei muita atenção, porque já fazia quatro anos que eu havia engravidado pela segunda vez e nas duas gestações anteriores eu perdi o bebê com cerca de 08 semanas. Havíamos feito os exames para começarmos a fazer uma reprodução assistida e, na minha cabeça, engravidar de forma natural aos 43 anos, depois de dois abortos espontâneos, era praticamente impossível. Na viagem de volta eu vi um filme no avião e não parei de chorar o tempo todo. Mais uma vez eu comecei a pensar na possibilidade de uma gravidez e então, 02 dias depois fiz um teste de farmácia. Positivo. Procurei minha médica no dia seguinte e logo depois confirmei a gestação. Ainda estava bem no começo e fiz o primeiro ultrassom com 06 semanas, mais ou menos. Quase morri de alegria quando ouvi o coraçãozinho batendo. Nas minhas duas gestações anteriores eu não tive essa oportunidade, porque da primeira vez eu só descobri a gravidez quando estava perdendo o bebê, com um sangramento enorme, e na segunda eu tive uma gestação anembrionária, ou seja, não havia nada dentro do ‘ovo’. Então, ouvir aquele coração ainda se formando batendo dentro de mim foi uma alegria imensa. Fiz todos os exames que a médica me pediu, continuei a acompanhar o desenvolvimento do meu bebê e não contamos a ninguém sobre a gravidez até que eu completei 12 semanas, quando o risco de perdê-lo já era bem menor. Até começarmos a contar para as pessoas sobre a gravidez parecia que aquilo não estava acontecendo, que era um sonho, uma coisa com outras pessoas, não sei explicar. Mas, aí a realidade se materializou e começamos a comemorar a vinda do nosso bebê. Com 16 semanas de gestação, exatamente no dia 11 de Outubro de 2012, descobrimos que o nosso bebê era o Antonio. Fiquei muito feliz por ser um menino, mas se fosse uma menina eu também teria ficado feliz, não importava muito o sexo, porque estávamos os dois radiantes com a minha gravidez. Saímos do laboratório e fomos comemorar, ligar para a nossa família, para os nossos amigos. Tínhamos várias amigas grávidas também, seriam vários bebês nascendo na mesma época. Uma época de muitas graças e muitas alegrias. Neste período eu resolvi mudar de médico. Voltei a procurar um médico em que eu ia há alguns anos e, naquele momento, quis que ele me acompanhasse na gestação. Eu sempre gostei muito dele e acho que fiz a escolha certa. Nunca vou esquecer o sorriso com que ele me recebeu de volta no consultório e o abraço que ele me deu pela minha gravidez. Minha gravidez transcorreu normalmente. Não tive enjôos – nem sei o que é isto – engordei pouco, fiz exercícios, drenagem, cuidei da minha alimentação, tomei ácido fólico, vitaminas, fiz tudo direitinho. Fiquei nervosa com o trabalho, com coisas do dia a dia, mas nada que representasse um risco enorme para o meu filho e para mim. Tive uma gravidez muito tranquila, na verdade. Comecei a sentir falta de ar nos últimos meses, não dormia direito, sentia muito calor e fiquei de muito mau humor, mas fisicamente eu sempre estive ótima. Meus exames e os do Antonio foram excelentes. Ele se desenvolveu normalmente, era perfeito, cresceu bastante, engordou, minha barriga ficou enorme. Tínhamos muita expectativa com o nascimento dele. Fomos conhecer duas maternidades, marcamos curso para gestantes, tínhamos uma data sugerida para o parto, fizemos o quarto, compramos berço, cômoda, roupas, brinquedos, enfeites. Contratei uma babá, agendei consulta com uma pediatra, enfim, preparamos tudo para a chegada dele. Assim que eu completei 32 semanas comecei a achar que ele estava se mexendo menos. Fiquei preocupada em razão das coisas que eu li na internet e liguei para o meu médico, que me tranquilizou porque, até então, tudo tinha transcorrido normalmente com o meu filho. Não havia motivo para nos preocuparmos, porque em nenhum exame houve a indicação de que alguma coisa pudesse dar errado. Mas, no fundo eu estava preocupada. No dia 04/02/2013 eu acordei de madrugada com umas contrações sem dor e uns calafrios, mas fiquei relativamente tranquila, porque havia lido que essas contrações são normais no final da gravidez. Mesmo assim entrei em contato com o médico e ele me disse para não me preocupar, mas para prestar atenção nos movimentos fetais. Respondi a ele que aparentemente os movimentos estavam normais. Eu realmente achei que estavam. E então, no dia 06/02/2013 fui fazer uma ultrassonografia de rotina às 08h00. Meu marido me acompanhou, como em todas as outras vezes, mas eu estava ansiosa, queria fazer o exame logo e tirar as preocupações que eu tinha na cabeça. Sou muito impressionada e qualquer coisa, ainda que simples, me deixa preocupada. Logo que começamos o exame, a médica – dra. Mariza, nunca vou esquecer o nome dela – começou a me fazer algumas perguntas diferentes, se eu havia tido alguma gripe, alguma infecção. E veio a notícia que mudou nossas vidas para sempre: o nosso bebê tão amado, o nosso filho Antonio não tinha mais batimentos cardíacos. Meu marido entrou em desespero na hora e eu fiquei tentando acalmá-lo. Não conseguia chorar, não entendia direito o que estava acontecendo. Parecia que não era comigo, não sei explicar. A médica começou a falar um monte de coisas, pegou água para o meu marido e me disse para ligar para o meu médico. Consegui falar com uma pessoa que atendeu o seu celular, ele estava fazendo um parto e não podia falar comigo. Pegamos o exame, arrasados, e fomos para o consultório do meu médico, esperar por ele lá. Toda a nossa vida virou de cabeça para baixo. Fui internada no mesmo dia, mas não conseguia acreditar que meu filho tinha morrido. Eu estava com uma barriga enorme, linda, mas carregava um bebê morto. Foi um dos dias mais tristes da minha vida. Até agora eu não sei como fui para o hospital, como eu consegui arrumar a mala, como me lembrei de pegar escova de dentes, livro, pijamas. Não sei como eu sobrevivi àquele dia. Quando nós chegamos em casa, voltando do consultório do médico, a moça que trabalha em casa estava passando as roupinhas do Antonio. Agora, quando eu me lembro, não sei como eu passei aquelas horas, sinceramente. Meu médico foi me ver no hospital para explicar o que seria feito. Disse-me que o melhor seria induzir o parto, para que eu não tivesse que fazer uma cesárea, mas que isto demoraria algumas horas. Concordei com ele e passei a noite toda e o dia seguinte tomando medicamentos para induzir o parto do meu filho morto. Mesmo assim, não consegui ter dilatação e tive que fazer a cesárea. Meu filho nasceu morto às 19h16 do dia 07/02/2013, com 1,920 kg e 33 semanas. Não quis vê-lo, não tive coragem. Hoje me arrependo um pouco. Mas, não sei se suportaria a dor, na realidade. Tivemos que decidir o que fazer com o corpinho dele e decidimos cremá-lo. Assim foi feito e alguns dias depois, no dia 21/ 02/2013, fomos buscar as suas cinzas e levá-las em um lugar bonito. Quando entrei no carro, saindo do crematório, meu marido olhou para mim e disse que sempre o imaginou andando numa cadeirinha no banco de trás. Nunca em um saquinho de plástico. Foi a coisa mais triste que eu já ouvi, nunca vou me esquecer disto. Deixamos suas cinzas em um regato, no Templo Zu-Lai. Não somos budistas, mas é um lugar sagrado e muito tranquilo. Achamos que lá ele estaria em paz. Hoje faz 46 dias que tudo isto começou. Não sei dizer como eu tenho vivido. Choro todos os dias, uns mais e outros menos. Se tudo tivesse corrido bem, meu filho teria nascido esta semana. Se tudo tivesse saído como planejamos, hoje estaríamos com ele dormindo no berço no quarto ao lado, seguro, saudável, vivo. O berço continua montado, não tivemos coragem de desmontá-lo, tirá-lo do quarto, mandá-lo para o depósito na garagem, junto com as outras coisas do Antonio. O berço está lá, vazio. Tenho feito terapia, fui ao psiquiatra, venho tomando remédio para dormir e controlar a ansiedade, mas a dor não passa. E não vai passar nunca. Talvez um dia diminua, o tempo faz milagres, alivia as lembranças ruins. Mas, nem o tempo tem o poder de curar uma dor tão imensa. Pode atenuar, mas não vai curar. Fui a um centro espírita à procura de respostas, à igreja, tenho feito minhas orações à N. Sra.. Pelo menos tenho conseguido rezar. Nos primeiros dias eu senti muita raiva de Deus, me senti abandonada, desprotegida. E ainda me sinto assim, às vezes. Eu tinha muitas dúvidas a respeito da maternidade, sempre protelei a decisão de ser mãe. Há alguns anos vínhamos falando no assunto, procuramos mais de um especialista em fertilização, mas nunca começamos o processo, sempre vínhamos adiando. Eu não queria fazer inseminação, passar por todo o desgaste de um tratamento doloroso, pela expectativa do resultado. Mas, estava disposta a fazer, quando engravidei de forma natural. Durante a minha gravidez eu fiquei muito preocupada em não engordar, em não ficar feia, inchada. Quanta besteira! Tinha convicção de que não queria engravidar de novo, que só queria ter 01 filho, que não queria passar por outra gravidez. Hoje, engravidar de novo é tudo o que eu mais quero. Todos os dias eu peço à N. Sra. das Graças que me conceda a graça de poder sentir de novo uma vida crescendo no meu ventre. Todos os dias eu peço a Deus que me dê outra chance, que me dê a oportunidade de ser mãe de um bebê perfeito, saudável, que nasça cheio de luz e, principalmente, vivo. Eu mudei muito. A dor de perder um filho não tem como ser descrita, não tem como mensurar. Tem pessoas que acham que só porque ele não nasceu vivo, só porque eu não o vi a dor é menor. E não é menor, a dor é imensa. Machuca demais quando alguém desqualifica o que eu sinto. Eu convivi com o meu filho dentro de mim por 08 meses, eu o senti mexer, vi minha barriga crescer, ficar enorme, senti os desconfortos e a imensa alegria de ter uma vida crescendo aqui dentro. Dói demais quando eu penso que eu nunca vou ver o Antonio, nunca vou sentir o cheirinho dele, nunca vou ver os seus olhinhos, nunca vou senti-lo mamar no meu peito, nunca vou poder vê-lo dormir, crescer, aprender a viver. Nunca, por toda a minha vida, eu vou ter o meu filho nos meus braços. Hoje eu não tenho mais dúvidas sobre a maternidade. Quero muito ser mãe. Quero muito conseguir gerar uma outra vida, me sentir grávida de novo. Mas, faço 44 anos daqui a 03 semanas e estou muito preocupada. Meu médico tem convicção de que é possível que eu engravide de novo naturalmente, mas eu tenho muitas dúvidas. Quero muito que ele esteja certo. Não sabemos o que matou nosso filho. Todos os exames que eu fiz até agora não indicaram a causa. A autópsia também não foi conclusiva e meu médico disse que o cordão estava intacto, a placenta não tinha nada de anormal e meu filho não tinha nenhuma síndrome, pelo menos não aparente. Ele simplesmente se desligou de nós e estamos no escuro, sem chão e sem saber o que houve com ele. Decidimos consultar um especialista em medicina fetal, para tentarmos achar alguma explicação para a morte do nosso filho. Talvez tenhamos alguma pista, mas não sei. E estou decidida a fazer a inseminação, se for preciso. Na última quinta-feira eu estive no meu médico e ele me viu tão desesperada que me deu o telefone de 02 especialistas em reprodução humana, para que eu consulte e saiba a opinião deles. Fui ao consultório muito desesperançada e saí de lá com muita raiva do meu médico, pelas coisas que ele me disse e pela bronca que ele me deu, por estar desistindo. Depois, parei para pensar e acabei ficando grata a ele, porque ele só me disse coisas positivas, para eu não desistir de ser mãe, porque eu tenho todas as condições para que isto aconteça naturalmente. Mas, tenho dificuldades de acreditar nele. Quero muito acreditar. Espero que ele esteja certo. Estamos retomando nossa vida sexual e estarei liberada para tentar engravidar de novo daqui a 01 ou 02 meses. Meu corpo já se recuperou e, felizmente, tenho uma saúde ótima. Vamos investigar tudo o que for preciso e tentar descobrir o que levou à morte do Antonio. Se for necessário faremos a inseminação. Não vou desistir de ser mãe. Jamais vou me esquecer do meu filho e a saudade que eu sinto dele não vai passar nunca. Mas, quero muito sentir outra vida crescendo dentro de mim. Quero muito sair da maternidade com o meu filho nos braços. Quero muito trazer para casa o meu filho saudável, perfeito, vivo. Voltei para casa sem o Antonio, sem o meu bebê tão amado, tão esperado, tão desejado. Hoje eu tenho um corte na barriga, uma dor imensa no coração, a alma em pedaços e os braços vazios. Espero que isto mude em breve.”

Vivência de um aborto

O teste positivo de gravidez anuncia uma nova possibilidade: tornar-se mãe. Que dádiva para quem vem sonhando com um filho há tempos! É inevitável não pensar em como serão os próximos meses com a barriga a crescer e o com o bebê a mexer dentro dela. Isso sem contar os pensamentos em como será tê-lo nos braços, seu sorriso, seu choro, suas futuras “artes”. Tudo isso enche o coração de alegria e fortalece, desde muito cedo, o vínculo com o futuro rebento.

Porém, a vida às vezes nos reserva surpresas que nunca imaginaríamos passar. De repente, o sonho parece que vira um pesadelo e tudo aquilo que idealizamos, de um momento a outro, passa a ruir. A constatação médica de que o bebezinho, que tinha tudo para se desenvolver, “parou”, é terrível e de muito difícil aceitação.

Com certeza, trata-se de uma experiência traumática, pois não há como não se traumatizar com algo tão inesperado que nos invade, sem que possamos atribuir o menor sentido para essa experiência. Afinal, essa não é a ordem natural da vida, nenhum pai e nenhuma mãe imagina enterrar um filho seu, mesmo que esse enterro seja simbólico pela ausência de um corpo físico (no caso  dos abortos em fases iniciais).

A vivência dos sentimentos de luto que toda essa experiência traz consigo é fundamental para a elaboração da mesma. É necessário sim chorar essa dor e se permitir expressar todas as revoltas que costumam aparecer em meio a esse processo.

Muitas vezes, o sentimento de culpa também pode vir associado à essa vivência, como se realmente pudesse ter sido possível evitar esse acontecimento. Dessa forma, pensamentos a respeito de não ter se resguardado tanto ou de poder ter feito algo diferente podem aparecer, como se um comportamento “x” ou “y” pudesse ter garantido (em fantasia) o bebê em casa.

Além disso, infelizmente, nossa sociedade ainda tem dificuldades em reconhecer esse tipo de luto, e frases muitas vezes que são ditas na intenção de consolo, acabam por abrir ainda mais essa ferida já exposta: ” Melhor agora, que vocês nem se apegaram ao bebê!”, “Deus sabe o que faz, provavelmente, não viria saudável”, ” Não tem problema, logo vocês engravidam de novo!”, e por aí afora…

A trabalho psicológico com um profissional capacitado pode ajudar muito na elaboração dessa vivência, uma vez que possibilita-se a diminuição dessa dor e a busca de um sentido subjetivo para esse acontecimento.

Luciana Leis