Quando o tratamento não dá certo

Olá, seguidores!

desesperançaO tema de hoje é delicado, mas acredito que de grande relevância, afinal, ninguém que se submete à tratamentos de reprodução assistida, quer seja de baixa ou alta complexidade, deseja passar por todo esse processo e não ter o resultado esperado, porém, infelizmente, isso pode acontecer…

Percebo que vários casais, quando iniciam um tratamento, procuram negar a possibilidade do beta negativo, racionalmente sabem que pode não dar certo, mas acreditam- com todas as suas forças- que com eles será diferente e, pensar nessa possibilidade, pode, inclusive, trazer “má sorte” ou atrair “um resultado negativo”.

Acontece que, quando o tratamento não dá certo, o tamanho da queda costuma ser de acordo com o da idealização, ou seja, casais que já estavam contando com o bebê a caminho, caem de um lugar muito alto e se veem em meio a um mar de desilusão. Tudo isso é muito doloroso e pode, inclusive, dificultar que os casais consigam retomar tratamentos futuros na busca de um resultado diferente.

Porém, há também os casos que estão no outro extremo, ou seja, pessoas que já se decepcionaram com tentativas anteriores e retornam aos tratamentos quase que com a convicção de que a tentativa terá novamente um resultado negativo. Nestes casos, o psiquismo dessas pessoas tenta se proteger de um novo sofrimento desinvestindo o que desejam- que o tratamento dê certo- para não se frustrarem novamente.

No entanto, embora pareça ser uma boa estratégia para evitar o sofrimento, também é complicada, pois, é necessária certa energia para investir neste tipo de tratamento, sendo que, o principal motor desse processo, é a esperança de ter o desejo realizado. Além disso, é impossível não sofrer com um beta negativo quando se está tentando ter um filho e essa forma de buscar lidar com os tratamentos, na maioria das vezes, não costuma poupar os casais da frustração, quando o resultado é negativo.

A verdade é que, infelizmente, não existe uma receita da melhor forma de lidar com a frustração desses tipos de tratamento, a dor de um beta negativo só quem vive sabe como é… um vazio imenso, frustração, decepção e sensação de se ter perdido um ente querido.

Em psicologia falamos que é uma vivência de luto, afinal, durante todo o tratamento o filho já existia mesmo antes de existir, cada injeção aplicada, cada ultrassonografia realizada etc, já era para ele, que, com o beta negativo, deixou de existir.

Buscar dosar as expectativas para um próximo tratamento não é nada fácil, mas é importante considerar que o negativo pode fazer parte do processo de busca por um filho. Em hipótese alguma ele quer dizer que o sonho não será possível, mas sim, que será necessária mais força e perseverança até o resultado almejado.

O mundo gira e a vida tem um movimento, portanto, tudo pode mudar, desde que haja busca por mudança. Vamos em frente!!!

Luciana Leis

Luto e infertilidade

lutoOlá, seguidores!

Lendo a coluna do psicanalista Contardo Calligaris no jornal Folha de SP, na última quinta-feira, sobre “Como viver um luto”, me surgiu a vontade de escrever sobre os diversos lutos que quem enfrenta a infertilidade precisa passar.

Antes de tudo, penso ser importante explicar que luto se refere à toda situação de perda, não necessariamente morte de alguém, mas algo que se tinha (ou acreditava-se ter) e se perdeu, por ex.: perda de um grande amor, do emprego, da saúde etc.

Acredito que o primeiro luto a ser elaborado por quem vivencia a dificuldade de gravidez é o luto pela perda da fertilidade. Sim, pois enquanto não “testamos” nosso corpo para tentar engravidar, acreditamos que tudo está perfeito, porém, quando com o passar dos meses o bebê não vem, precisamos assumir para nós mesmos que algo está errado, que talvez a gravidez não ocorra igual acontece para a maioria das pessoas e que o tratamento para infertilidade pode ser necessário.

Assumir para si mesmo a infertilidade não é nada fácil, é necessário lidar com a perda de uma certeza que até então tínhamos- “Meu corpo funciona bem e basta pararmos de nos prevenir que a gravidez virá”. Esse é o primeiro luto a ser elaborado e, somente a partir da aceitação da infertilidade, é que o casal estará aberto para os tratamentos para engravidar.

Já em meio aos tratamentos, outros lutos também podem ocorrer, por exemplo: quando o corpo não responde à medicação como seria esperado, quando não se tem óvulos ou embriões para a transferência no útero.

São situações duras; lembro-me de uma paciente, após coleta de 10 óvulos em uma fertilização in vitro e nenhum embrião fertilizado me dizer: “Estou péssima, só choro, parece que morreu alguém!”. E é assim mesmo, o sentimento de dor e tristeza fazem parte do luto e, para essa paciente, na ausência de embriões a serem transferidos, morreu ali toda a sua expectativa do bebê a caminho naquela tentativa.

A vivência do beta negativo talvez seja o mais temido e dolorido luto a ser vivenciado por quem faz tratamento. Por mais que se saiba, racionalmente, da possibilidade do tratamento não ter o resultado esperado, a confirmação de que “não deu certo” é muito dolorida, pois, inevitavelmente, o casal constrói um bebê em sua cabeça ao longo do tratamento e, o exame de um BHCG negativo faz todo o sonho ruir- ao menos momentaneamente.

A experiência de um BHCG negativo assemelha-se à vivência de um aborto, desse filho que parecia já existir e se foi. É muito importante que esse luto possa ser reconhecido e vivenciado, pois, nem sempre o psiquismo está preparado para tentar outro tratamento logo no ciclo seguinte.

Cada pessoa tem um tempo individual para vivenciar e significar os seus lutos, o respeito a esse tempo, sem atropelar-se e fingir que nada aconteceu, é saudável e colabora para o reequilíbrio diante dessa situação, uma vez que é necessário certo equilíbrio emocional para seguir em frente na busca do que desejamos.

Luciana Leis

 

Tentativas frustradas de tratamento: Como seguir em frente?

caminhadaÉ verdade que realizar tratamentos de reprodução assistida não costuma ser uma experiência fácil para a maioria das pessoas. Disponibilizar tempo (e dinheiro) para as consultas médicas, ultrassonografias de controle da ovulação e procedimentos médicos, vira quase uma “ginástica” em meio à rotina de trabalho de quem está tentando engravidar desta maneira.

Porém, o mais difícil deste processo, é passar por tudo isso e não ter o resultado esperado; essa experiência desestabiliza o emocional de qualquer um. Por mais que, racionalmente, se saiba dessa possibilidade, o resultado negativo tem um impacto sobre o casal e pode ser melhor ou pior “digerido” dependendo da estrutura emocional de cada um.

Após o “beta negativo”, como seguir em frente? Como acreditar novamente que, mesmo fazendo todo o processo do mesmo modo, o resultado pode ser diferente? Não é fácil, mas o resultado pode ser diferente sim, sendo importante a persistência e crença interna de que o sonho é possível.

Algumas pessoas precisam de um  tempo maior para elaborarem o sentimento de frustração e de fracasso, esse último, muito comum também, pois, intimamente o casal se responsabiliza pelo resultado. Assim, quando não dá certo, ficam buscando respostas para o que aconteceu, acreditando, por exemplo, que foi falta de repouso, algo de errado que fizeram no passado etc.

Mas é o sonho não realizado que realmente faz o casal recrutar forças para ir em frente. O vazio do filho que não chega é muito angustiante e faz com que se busque alternativas para por fim a esse sofrimento e ter o tão almejado filho nos braços.

Se a via do tratamento é o caminho possível, é nela que precisamos trilhar para chegar onde desejamos. Por mais dolorido que possa ser todo esse processo, o filho justifica tudo e com ele, toda a dor fica para trás.

A chegada de uma vida não está sob o controle de ninguém, mas buscar meios para  que ela chegue, quer pela via do tratamento, adoção, ovodoação etc, isso sim está atrelado ao que podemos fazer para possibilitar a concretização do desejo.

Luciana Leis