Nova gravidez após experiência de aborto

abortoA experiência de passar por um (ou mais) aborto(s) não é nada fácil, afinal, perda de filho é uma das perdas mais difíceis de serem elaboradas, não segue a ordem natural da vida- onde os pais partem primeiro- e é um processo complicado conseguir dar nome e lugar à essa dor, que aliás, nem nome tem, pois quando um filho perde os pais fica órfão, já o contrário, não existe nome.

Trata-se de um enlutamento muito singular, não de alguém objetivamente conhecido, mas de um bebê imaginário, o qual já vinha construindo vínculos antes mesmo de nascer. Não é à toa que essa dor é tão profunda e a ferida que ela deixa de difícil cicatrização.

Além disso, por se tratar de uma morte tão precoce, o aborto tende a ter dificuldade em ser reconhecido como perda de alguém pela sociedade, a qual, em geral, não lida bem com a morte, principalmente, de bebês. Frases como: “Foi melhor assim, ter um filho com problema seria muito pior”, “Antes agora que não deu tempo de você se apegar!” entre outras, são bastantes ouvidas pelas mulheres que já abortaram e só prejudicam que o luto por esse filho possa ser elaborado.

Percebemos que a mulher que sofre aborto fica perdida emocionalmente diante dessa dor, onde sente-se triste pela perda, mas, ao mesmo tempo, não tem seu luto autorizado de ser vivenciado pelos que estão à sua volta.

Somado à isso, o “fator surpresa” que, na maioria das vezes, essa experiência traz consigo, colabora por dificultar ainda mais o trabalho de elaboração desse tipo de perda, pois, quando somos pegos desprevenidos por algo, esse algo tende a se tornar um evento traumático para nosso psiquismo. Assim, muitas mulheres que passaram por essa experiência tentam evitar lembrar desse acontecimento, virar a página; além disso, se armam de uma série de defesas psicológicas para evitar o sofrimento novamente (como se isso fosse possível) na gravidez de um outro filho.

Notamos que a nova gravidez de uma mulher que sofreu aborto anterior vem marcada de uma forma diferente, ou seja, por medos e inseguranças diferentes das mulheres que não passaram por esse tipo de experiência. O fantasma da possibilidade de uma nova perda atormenta a todo tempo essa gestante, a qual, na maioria das vezes,  passa a ter dificuldades de investir nessa nova gravidez por medo de um novo aborto.

No atendimento à essas mulheres percebo que há dificuldade em fantasiar o bebê, receio de contar às outras pessoas sobre a gravidez e medo de comprar o enxoval para o novo rebento.

Mathelin (1999)  explica que quando uma grávida prepara o enxoval do seu filho “fabrica” para além das roupas, os braços, as pernas, a imagem do corpo do seu bebê em sua cabeça. A criança começa a tomar forma não só no ventre de sua mãe, mas também em sua fala, no seu desejo.

Porém, se o luto pelo filho anterior não tiver sido vivenciado  e elaborado, o investimento nesse novo bebê  ficará prejudicado,  fazendo com que a mulher se mantenha em um constante estado de alerta e angústia nesta  gravidez. A dificuldade na diferenciação da gestação que não vingou da atual é muito comum e merece cuidado psicológico para que não venha atrapalhar o sossego e o cuidado da grávida para com seu novo bebê.

O acompanhamento psicológico pós aborto, auxilia a mulher a dar contorno e significados a essa experiência, abrindo espaço para um novo bebê, o qual é único e necessita do investimento emocional de seus pais.

Luciana Leis

 

 

Vivência de um aborto

O teste positivo de gravidez anuncia uma nova possibilidade: tornar-se mãe. Que dádiva para quem vem sonhando com um filho há tempos! É inevitável não pensar em como serão os próximos meses com a barriga a crescer e o com o bebê a mexer dentro dela. Isso sem contar os pensamentos em como será tê-lo nos braços, seu sorriso, seu choro, suas futuras “artes”. Tudo isso enche o coração de alegria e fortalece, desde muito cedo, o vínculo com o futuro rebento.

Porém, a vida às vezes nos reserva surpresas que nunca imaginaríamos passar. De repente, o sonho parece que vira um pesadelo e tudo aquilo que idealizamos, de um momento a outro, passa a ruir. A constatação médica de que o bebezinho, que tinha tudo para se desenvolver, “parou”, é terrível e de muito difícil aceitação.

Com certeza, trata-se de uma experiência traumática, pois não há como não se traumatizar com algo tão inesperado que nos invade, sem que possamos atribuir o menor sentido para essa experiência. Afinal, essa não é a ordem natural da vida, nenhum pai e nenhuma mãe imagina enterrar um filho seu, mesmo que esse enterro seja simbólico pela ausência de um corpo físico (no caso  dos abortos em fases iniciais).

A vivência dos sentimentos de luto que toda essa experiência traz consigo é fundamental para a elaboração da mesma. É necessário sim chorar essa dor e se permitir expressar todas as revoltas que costumam aparecer em meio a esse processo.

Muitas vezes, o sentimento de culpa também pode vir associado à essa vivência, como se realmente pudesse ter sido possível evitar esse acontecimento. Dessa forma, pensamentos a respeito de não ter se resguardado tanto ou de poder ter feito algo diferente podem aparecer, como se um comportamento “x” ou “y” pudesse ter garantido (em fantasia) o bebê em casa.

Além disso, infelizmente, nossa sociedade ainda tem dificuldades em reconhecer esse tipo de luto, e frases muitas vezes que são ditas na intenção de consolo, acabam por abrir ainda mais essa ferida já exposta: ” Melhor agora, que vocês nem se apegaram ao bebê!”, “Deus sabe o que faz, provavelmente, não viria saudável”, ” Não tem problema, logo vocês engravidam de novo!”, e por aí afora…

A trabalho psicológico com um profissional capacitado pode ajudar muito na elaboração dessa vivência, uma vez que possibilita-se a diminuição dessa dor e a busca de um sentido subjetivo para esse acontecimento.

Luciana Leis